Tecer, utilizando o raciocínio, uma versão da história nacional ... Relacionar fatos ajuda a entender alguns caminhos percorridos. Ter um sentido de tempo ajudar a compreender o passado, ajuda a compreender o hoje.
O fio da memória tece um caminho que pode ter como marco a Inconfidência Mineira, Joaquim José da Silva Xavier, o que "morreu no dia 21 de abril e que foi traído mas não traiu jamais a Inconfidência de Minas Gerais."
Quadro "A liberdade guiando o povo" de Ferdinand Victor Eugene Delacroix - Os seios de fora traduzem a liberdade estética da mulher trabalhadora que não podia espremer suas formas nos espartilhos, como fazia a nobre que vivia no ócio.
Sans-Culottes eram o homens que não usavam os "calções curtos" da nobreza; eram os homens que andavam sempre a pé, pois não possuíam carruagens. Eles são os vencedores da Queda da Bastilha, marco histórico que lhes deu proeminência e direitos políticos. Conta-se que os sans-cullotes usavam calças compridas que acabaram se tornando o traje oficial do homem burguês após a revolução francesa.
1789 - ano da revolução francesa, que influenciou aqui, no Brasil, a Inconfidência Mineira.
"(...) Não esqueça dizer que, em 1888, uma questão grave e gravíssima os fez concordar também por diversas razão. A data explica o fato: foi a emancipação dos escravos." Trecho do romance " Isaú e Jacó" de Machado de Assis, onde dois irmãos, Paulo e Pedro, enxergam (de maneira diferente) fatos históricos do Brasil, a abolição dos escravos em 1888 e também a proclamação da república que ocorreu, ao contrário da revolução francesa, sem qualquer derramamento de sangue e sem qualquer participação popular.
Amanhã contarei um pouco da Inconfidência através da linha e da agulha.
Uma coisa é certa: a agulha e a linha são as maneiras mais seguras para se enlaçar o mundo, a cultura, a arte e até a realidade de uma época.
Linha e agulha, de ponto em ponto, uma época vai traduzindo suas características estéticas; de ponto em ponto, o "homo sapiens" vai traçando seu destino.
Certa vez comprei uma linda sandália em uma muito conhecida grife. No primeiro dia que a calcei, parte do pequeno salto ficou preso em um buraco que tinha numa calçada da zona sul do Rio de Janeiro.
Fui ao sapateiro e ele me disse que nada havia a fazer: o jeito era trocar a sandália por uma nova.
Resolvi ir na loja, situada no bairro de Ipanema. Procurei a vendedora que havia me atendido e expliquei para ela a situação. E ela foi logo me dizendo: "Ih, esqueci de lhe dizer que esta sandália é para ser usada por quem pega o carro na garagem e salta em outra garagem ..." Ou seja, não era uma sandália para se andar na rua!
Bem consegui trocar por uma nova sandália que ainda tenho e uso, eventualmente. Como não perco a mania de andar, contei este pequeno fato às minhas então alunas,pois gostava de iniciar as aulas com uma conversa com a turma: os assuntos técnicos estão previamente ligados a uma postura de vida. Afinal, trabalhamos com seres humanos.
A roupa é uma moldura. É a maneira da pessoa mostrar quem ela é, o que sente. É uma forma de expressar a individualidade. A arte do bem-vestir não se resume à questão do poder aquisitivo.
Outro dia vi e ouvi uma reportagem com os pais do jogador de futebol William, da seleção.
Sua mãe, na entrevista, disse que a história do seu filho é igual à história de muitos outros jogadores. Ou seja, William nasceu pobre, começou a jogar futebol cedo e se tornou um craque. Como craque da bola passou a ganhar muito dinheiro, tornou-se uma celebridade e resolveu todos os problemas econômicos seus e da sua familia.
A sociedade brasileira, uma sociedade patriarcal, manteve no século XIX e nas primeiras décadas do século XX, uma mulher com atitudes tolhidas e com falta de naturalidade no trato com os homens.
Nas roupas masculinas os motivos ou apelos sexuais vinham em segundo plano.
Até o século XIX, de acordo com a escritora Gilda de Mello e Souza, não havia distinção entre os tecidos usados pelos homens e os usados pelas mulheres. A diferença de fazendas se relacionava antes com a condição social e com o tipo de traje do que com o sexo.
Para se entender a moda é necessário inseri-la no seu momento e no seu tempo e descobrir as ligações ocultas que mantem com a sociedade.
A moda serve à estrutura social, acentuando a divisão de classe.
Para Gilda de Mello e Souza, autora do" Espírito das roupas "(editora Companhia das Letras), outro contraste não tão nítido que o da oposição dos sexos é o da oposição de classes numa sociedade que tende a se revelar através de certos sinais exteriores, como a vestimenta, as maneiras, a linguagem.
E as heroínas dos escritores nacionais Machado de Assis e de José de Alencar só tinham status econômico e social através do casamento.
José de Alencar afirmou "de certa uma mulher é indispensável e uma mulher bonita é o meio pelo qual o homem se distingue no 'grand-monde'".
Gilberto Freyre disse: "A mulher , no criativo Brasil patriarcal foi, evidentemente uma vitima do quase absoluto domínio sobre ela, da vontade, a princípio do pai, em seguida do esposo.Mas, em compensação, foi principalmente, quando sinhá ou sinhazinha, mimada, cortejada, valorizada esteticamente pelo seu dominador".
(anotações que encontrei nos meus arquivos focando, sobretudo, o livro "O Espirito das roupas" de Gilda Mello e Souza.
Acima, foto de José de Alencar; abaixo, foto de Gilberto Freyre
Brás Cubas de Machado de Assis, página 603 - Obras completas, Volume número 1 - Editora Nova Aguilar.
"(...) Realmente não sei como lhes diga que não me senti mal, ao pé da moça, trajando garridamente um vestido fino, um vestido que me dava cócegas de tartufo. Ao contemplá-lo, cobrindo casta e redondamente o joelho, foi que eu fiz uma descoberta subtil, a saber, que natureza previu a vestidura humana, condição necessária ao desenvolvimento da nossa espécie. A nudez habitual, dada a multiplicação das obras e dos cuidados do indivíduo, tenderia a embotar os sentidos e a retardar os sexos, ao passo que o vestuário, negaceando a natureza, aguça e atrai as vontades, ativa-as, reprodu-las e, consequentemente faz andar a civilização. Abençoado uso que nos deu Otelo e os paquetes transatlânticos! "
(o grifo é meu, para destacar a reflexão de Machado de Assis sobre o vestuário)